É interessante observarmos a exigência que muitos cristãos fazem a seus pastores para que dediquem tempo em atividades secundárias, prescindindo aquelas que o Texto Sagrado preceitua como sendo a função pastoral.
Vemos em Atos 6.4 que a tarefa pastoral precípua é a oração e o ministério da Palavra. A pregação da Palavra deve ser efetivada por cristãos especialmente vocacionados em distinção a todos os demais Ministérios Eclesiásticos. A idéia radical inerente ao Ministério, em todo o Novo Testamento, é serviço prestado em submissão, subserviência, diligência e fidelidade, que emprestam ao ministro dignidade e importância oficial devido a natureza e a qualidade do serviço prestado.
Dentre os Ministérios alistados na Bíblia o Ministério da Palavra é o mais rico na sua significação. É o Ministério do Logos, que no Novo testamento é o equivalente aDavar Elohim, Palavra de Deus, citada em hebraico 394 vezes no Antigo Testamento. O Ministério da Palavra, portanto, é o que encerra o compromisso de anunciar a Revelação de Cristo no sentido de uma comunicação divina em forma de mandamentos, profecias e conforto para o povo de Deus.
O pregador da Palavra de Deus é um profeta que deve compreender claramente a beleza e a universalidade do evangelho, absorto pelo Dom de proclamá-lo com persuasão, zelo e extremado amor, sempre divinamente inspirado e autorizado para esclarecer as manifestações de Deus decorrentes da mensagem proclamada. O pregador da Palavra é o mensageiro de Deus e o verdadeiro mestre da sociedade, eleito pelo próprio Deus da Palavra para arquitetar os ideais divinos para a sociedade, afim de que os ouvintes passem a orientar e dirigir suas vidas a partir da Palavra proclamada.
I – Finalidade específica do Ministério Pastoral (2)
Em uma pesquisa realizada entre pastores perguntou-se qual seria o alvo final do trabalho pastoral e muitos responderam ser a evangelização, outros a união dos crentes com o Senhor, uns poucos disseram ser o preparo do crente para a eternidade e para o mundo atual e, lamentavelmente, muitos não souberam responder a questão proposta.
É espantoso notar que muitos pastores dirigem igrejas e pregam sem ter uma noção clara quanto a finalidade do Ministério, o que ressalta o fato de que não desenvolveram uma visão bíblica para o Ministério da Palavra. Estão pastores mas não são Pastores na acepção bíblica da tarefa pastoral.
Quando buscamos no Texto Sagrado a finalidade específica para o Ministério Pastoral encontramos, além das tarefas primordiais indicadas em Atos 6.4, as responsabilidades alistadas a seguir.
1. Aperfeiçoamentos dos crentes
O pastor não pode contentar-se em visualizar nos membros da igreja apenas certas atitudes éticas pautadas na Palavra de Deus ou algumas poucas posturas próprias dos costumes e princípios denominacionais. Deus espera mais dos pastores e a tarefa pastoral deve esmerar-se em apresentar ao Senhor pessoas maduras e adultas na fé que sejam cumpridores da Palavra, cristãos "perfeitos em Cristo", Colossenses 1.28.
Deus espera que os pastores entreguem a Cristo a obra acabada, isto é, cristãos aperfeiçoados em Jesus, edificados na igreja, cheios do pleno conhecimento e firmados doutrinariamente. Cristãos que tenham uma identidade doutrinária definida e que interagem na obra do ministério da igreja de modo geral, Efésios 4.10-16.
2. Capacitar os cristão para o serviçoA igreja é uma escola de vida e de serviço. A convivência na igreja deve nos ensinar a servir no presente, preparando-nos para o serviço futuro na glória celestial, 1 Pedro 4.7-10.
O Senhor espera que nos preparemos e aprendamos sobre fidelidade e dons de ministérios, independentemente da condição social ou cultural, servindo na igreja local, que é a figura da igreja universal gloriosa, Mateus 25.14-30. A igreja não é um estágio no qual apenas esperamos passar o tempo até que Jesus volte.
Devemos servir com esmero e amor no presente para que sejamos encontrados fiéis no tempo em que formos convocados ao serviço celestial, Mateus 6.21-24; Marcos 10.43-45; Lucas 12.35-38; João 12.26; 13.13-17; Gálatas 5.13; Hebreus 10.22-25 e Apocalipse 22.3-4.
3. Preservar a unidade da igreja
A unidade da igreja é um desafio ao amor e ao respeito que os cristãos devem uns aos outros. É um chamado à compreensão das diferentes manifestações de Deus no mundo através da igreja local sem prescindir da comunhão em Jesus e da sinergia cooperativa entre as diversas igrejas para que cada uma delas cumpra o seu Ministério.
A unidade da igreja é um desafio ao amor e ao respeito que os cristãos devem uns aos outros. É um chamado à compreensão das diferentes manifestações de Deus no mundo através da igreja local sem prescindir da comunhão em Jesus e da sinergia cooperativa entre as diversas igrejas para que cada uma delas cumpra o seu Ministério.
O pastor deve ter uma visão horizonal do Reino de Deus, isto é, deve enxergar além do horizonte da igreja local ou de sua denominação. Há uma realidade muito maior e superior do que a própria igreja local que é a Igreja Universal, Invisível e Gloriosa, sendo a igreja local condicionada pelos sinaléticos denominacionais apenas uma ínfima expressão da grande totalidade do que constitui-se a Igreja de Deus em Cristo, João 17.11 e 20-23; Efésios 4.4-7; Hebreus 12.22-24; Apocalipse 7.9-15.
II – A Relevância da Tarefa Pastoral para a Sociedade (3)
Nossa sociedade se admite pós-moderna e adota novos paradigmas socioculturais e eclesiológicos, o que nos exige a compreensão das rupturas que se refletem no nosso cotidiano a partir da substituição da mecanicidade pela informação e informatização.
Vivemos em uma sociedade cibernética e de realidades virtuais. A igreja não pode ser acometida de refração causada pelas lentes do virtuosismo ufanista e sectário que se recusa à novas e diversificadas percepções da sociedade. O pastor não pode fechar os olhos às transmutações da sociedade que privilegia a privatização e a heterogeneização de interesses e valores, que vive em constante suspeição da própria razão ressaltando a espontaneidade em contraposição à subordinação.
Não há como não enxergar a pluralidade dos conceitos éticos e morais estabelecidos pelo situacionismo degradante ancorado e aglutinado em torno de interesses egocêntricos, o que exige da igreja o redirecionamento dos comportamentos eclesiológicos e pluralidade na expressão cúltica, o que só será possível a partir do reposicionamento da atuação pastoral. Há que se redefinir a homilia, sem contudo, descambar para a relativização dos absolutos estabelecidos na Palavra de Deus.
Nossa sociedade admite variegadas contemplações do mundo supondo que a realidade seja ordenada a partir da observação das leis naturais e do ciclo existencial. Mediante a essa miopia sociológica é imperioso desenvolvermos uma cosmovisão pastoral que se contraponha à predisposição pós-moderna de rejeitar uma perspectiva unívoca e correta, como preceitua a Palavra de Deus. A pós-modernidade implica no abandono de qualquer mito legitimador dominante desacreditando das meta-narrativas predominantes, refutando e ridicularizando as micro-narrativas que se auto-arrogam credibilidade insofismável, como faz discurso evangélico tradicionalista que reproduz uma eclesiologia arcaica em detrimento da edificação e da relevância da igreja para a sociedade.
Uma cosmovisão pastoral para a pós-modernidade deve considerar o fato de que o mundo não é algo exterior e que dele extraímos nossos conhecimentos. Uma atuação pastoral instrutiva e construtiva, bem como uma igreja relevante, deve entender e visualizar a possibilidade de criarmos os mundos, as realidades existenciais, por meio da pregação contextualizada que considera as influências recebidas na formatação da personalidade, dos conceitos éticos e da própria religião. A Bíblia tem pressupostos para o ceticismo humano e os pastores devem ser dotados de graça e qualificados para a interpretação dos absolutos de Deus em qualquer época da história.
Se na pós-modernidade a realidade é relativa, indeterminada e participável, os pastores devem atuar na formação da consciência cristã, ética e social orientando a igreja para que condicione sua mentalidade, sua eclesiologia e sua expressão cúltica em paralelo a recusa do verdadeiro conhecimento de Deus, considerando a validade das emoções e da intuição na percepção ideológica da verdade e da fé, tornando a igreja e o labor pastoral relevantes e essenciais para o nosso contexto sociocultural.
O pastor tem a vantagem de estar presente em quase todas as ocasiões da vida das pessoas podendo interpretar as revelações proposicionais da Bíblia a partir da atuação de Deus na história, isto por quê uma mensagem bíblica e profeticamente contundente aborda sobre uma variedade de problemas existenciais e práticos, jamais apresentando-se como um discurso paliativo e superficialmente direcionado às necessidades imediatas. O ministério pastoral é a única tarefa que pode oferecer renovada razão de ser para a sociedade em decadência ética e espiritual por enunciar mensagem verdadeira e mística, no sentido pleno do termo, pois a fé cristã é o único misticismo que permite ao homem comunhão consigo mesmo, com a sociedade e com o Deus verdadeiro de forma completa, sem deixar de lado o intelecto, a volição e as emoções, proporcionando ao ser uma experiência agregária, a igreja, inigualável.
Podemos ainda considerar de extrema relevância a tarefa pastoral por ser o pastor, quando consciente de sua tarefa e de seu compromisso como profeta, o único com argumentos capazes de superar as controvérsias ideológicas e restaurar a unidade, a amplitude, a totalidade e a integralidade do ser, levando-o, pela exortação bíblica e ensino da Palavra, a comunhão com o Deus que pode restaurar e regenerar a sociedade. Nenhum outro Ministério Eclesiástico é chamado, vocacionado e lapidado para a proclamação da sã doutrina, para o ensino da Palavra de Deus e para o exercício da liderança na igreja de Jesus Cristo, agindo como salvaguarda da Verdade Apostólica.
Conclusão (4)
Não é difícil perceber que a igreja sofre as mais variadas influências e se vê pressionada pelas mais diversas tendências no atual contexto sociocultural. Os resultados disto é profundamente perturbador e causador de uma verdadeira crise de identidade ministerial entre os pastores, o que se verifica pela esquizofrenia resultante do trauma causado pela confrontação da liderança.
Na melhor das hipóteses, a igreja pós-moderna tem desvalorizado a autoridade pastoral quando exige do Ministro permanecer alheio ao desenvolvimento tecnológico e atrelado as expectativas denominacionais tradicionalistas que jamais promoverão desenvolvimento e maturidade para a igreja e para o próprio pastor. Alguns membros das igrejas tecnicamente treinados têm dificuldades em respeitar e ouvir os ministros formados e habilitados em retórica e idealismo denominacional devido a crescente confiabilidade dos modelos de gerenciamento e ao pragmatismo situacionista que corroem as bases bíblico-teológicas legadas aos pastores para a realização de seus ministérios. O triunfo do individualismo criou uma igreja cheia de pessoas que se recusam a aceitar alguém que lhes diga em que devem crer ou o que devem ou não fazer. O padrão sociológico é muito forte e o padrão bíblico é quase utópico no mundo estético e pictórico. (5)
É urgente e premente a necessidade de resgatarmos a credibilidade do Ministério da Palavra pois somente aqueles que abrem seus corações e suas mentes para a mensagem bíblica e à instrução pastoral crescerão espiritualmente. Os cristãos que resistem a autoridade pastoral ou que vivem buscando referenciais externos para abalizar a proclamação de seu pastor, além de se tornarem infelizes, excluem-se da nutrição espiritual que emana do púlpito da igreja.
Não é exagero asseverar que no século 21 o exercício do ministério pastoral ficará ainda mais difícil, visto que nossa sociedade se pauta pela negação da autoridade e pelo fato de nenhum outro ministério eclesiástico exigir cometimento e subordinação a autoridade como no caso do Ministério da Palavra. O tom da liderança pastoral deverá ser estabelecido na autoridade moral e espiritual que os pastores exibirão na pregação bíblica. Pregar deverá ser a demonstração pública de que a Palavra de Deus opera no pastor, sendo o instrumento que o Senhor utiliza para ministrar à igreja e ao mundo. Pregar sem autoridade rouba a essência da Palavra de Deus.
O trabalho do pastor atinge seu auge no púlpito, resultado de oração incessante e de inspiração autoconfrontante. Quando o pastor prega a Palavra de Deus, na unção e instrumentalidade do Espírito Santo, o Senhor cria um momento que é especialmente divino e que não pode ser repetido. Cada sermão é uma proclamação específica de Deus para um momento específico na vida de seu povo.
Que Deus nos ajude
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